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O Segundo Setênio e as metamorfoses.

O Segundo Setênio - de 7 a 14 anos


No segundo setênio ocorrem grandes transformações no nosso organismo suprassensível. O início da troca dos dentes de leite e a erudição do primeiro molar permanente são indicativos de que o corpo etérico, no polo cefálico, está mais independente. No primeiro setênio o corpo etérico dirigia a formação do organismo, agora está liberado para o aprendizado ligado à atividade do pensamento, da memória, das representações mentais e das sequências de ideias. Podemos dizer que a vida se recolhe frente a consciência para o pensar, condição prévia para a estruturação da vida psíquica individual. Por isso a expressão de que o corpo etérico nasce na criança.


“O pensar é um aprendizado que se dá em cima das forças de crescimento metamorfoseadas”.


A criança torna-se mais livre tanto das influências do ambiente quanto do humano, assim ela pode se desligar do ambiente etérico(1). Ocorre a individualização do corpo vital. Aquele cordão umbilical invisível que se manteve durante o primeiro setênio é cortado e, às vezes, a separação da mãe é sentida como um verdadeiro parto. A criança que tem irmão(s) mais velho(s) pode não sentir tanto quanto o primeiro filho ou filho único.

Durante esse período de 7 a 14 anos, a criança tem uma dentição mista, com a troca gradativa da dentição de leite pela permanente. Os dentes de leite são formados durante a gestação, costumo dizer que “a mamãe que fez os dentinhos de leite”. Com o nascimento da criança os dentes permanentes iniciam sua formação, costumo dizer que “a criança que construiu os dentes permanentes”.

O mundo externo chega até ela, e ela, a partir de dentro, pode se manifestar e se expandir no mundo. A característica deste setênio é a troca.

Ocorre também a maturação do cérebro com o término da mielinização nas células nervosas e isso é muito importante, pois quando observamos uma certa proporção entre cabeça e membros, de modo que a criança possa, passando seu braço sobre a cabeça, atingir a orelha do lado oposto, indica que ela está pronta para fase escolar de alfabetização.




Aprendizagem


O aprender deve ser um processo paulatino com o fornecimento crescente e gradual das matérias a memorizar e permitir que a criança capte conceitos passíveis de ampliação. Inicialmente os conteúdos deverão ser expostos sob forma de imagens, caracterizando-os, sem definir, em um pensar vivo(2). Precisa-se de tempo e dedicação para vivenciar com a criança estas descobertas, estimulando a curiosidade e o interesse pelo mundo.

Devemos observar na criança dois sintomas:

- A palidez é um sintoma do predomínio dos processos nervosos, com sobrecarga da memória e consequente desvitalização. Exigir que raciocinem até se cansarem ou lhe apresentar definições rígidas, rouba vitalidade que mais tarde na vida adulta poderá fazer falta.

- A face rosada e o comportamento exaltado observamos predomínio dos processos metabólicos e sugerem insuficiente atividade de memória.


O educador tem como missão estruturar o ensino de tal forma que harmonize esses processos dos polos neurossensorial e metabólico motor, opostos complementares. Assim o sistema rítmico poderá se desenvolver e tornar-se independente. O sistema rítmico é responsável pela harmonia e saúde, se desenvolve com a maturação do coração e pulmão. E, para toda a vida, tudo depende de como o sistema rítmico pode se consolidar nessa época, através da harmonia no sentimento, entre pensamento e vontade. A partir daqui consolida-se harmoniosamente a relação entre pulso e respiração = 4: 1.

O professor capacitado torna-se uma autoridade amada e passa ser referência, pois ele reconhece e percebe a criança, ofertando um mundo belo onde ela possa confiar nela mesma, se amar e se entregar. Autoridade amada que mostra os limites necessários, introduzindo de modo criativo e artístico, no mundo interior da criança, grandes e pequenas verdades da vida. Possibilita, assim, surgir o sentimento de veneração pelo belo. Uma boa prática é vivenciar a beleza da natureza e das obras de arte.

Sem amor, apenas com autoridade, a criança nada aprende. Se tentarmos resgatar nossas matérias preferidas, notaremos que eram as ministradas pelos professores que mais gostávamos.

O professor deve ser um artista da fala, criativo e cheio de poesia. Deve transformar a matéria em imagem artística ou em evento dramático, apelando para o sentimento, assim cativará a criança, vitalizando-a. A locução, o movimento e o canto fazem a transritmização do organismo.

É um período onde ocorre o nascimento emotivo, construção das bases do amor e da beleza. A criança percebe a existência dos próprios sentimentos e surge um senso estético.

Esta vida da alma é caracterizada por uma eterna flutuação entre simpatia e antipatia, sentimentos primordiais aos quais podemos relacionar tudo o que sentimos. E agora serão mais profundamente sentidas na alma. A criança desenvolverá o sentido social, fará amizades e também inimizades. Brincadeiras e jogos coletivos são muito importantes.

Essa alternância rítmica entre os dois polos é harmonizada no sistema rítmico, onde nesse setênio desenvolve-se completamente, de modo a tornar-se instrumento da vida afetiva. O corpo etérico - vitalidade - dirigia a formação do organismo no primeiro setênio, agora é o corpo astral que conduzirá o movimento da alma para o desenvolvimento da afetividade. A alma encontra seu alimento nas percepções sensoriais e exprime-se no movimento dos membros, equilibrando-se na oscilação entre o neurossensorial e o metabólico motor. A música é uma excelente maneira de harmonizar essa oscilação. Aprender a tocar um instrumento musical, nesta fase, ajuda o desenvolvimento da criança.

Costumes(3), conceitos(4) e normas(5) são formados e ficam inscritos no nosso corpo vital, na nossa memória, para toda a vida, podendo, mais tarde, aflorar ou não à consciência.


Metamorfose do pensar - a criança dos 7 aos 9 anos


Agora, o pensar deve acordar de forma imaginativa. A fantasia, no sentido de pensamento criativo, deve ser estimulada através de vínculos com heróis, com a arte e com a religião, estimulando a curiosidade da criança para que ela permaneça sempre desperta. O ensino intelectual deve ser impregnado por um espírito artístico. Os contos de fadas mais elaborados e fábulas são bem-vindos. A memória deve ser também estimulada, decorando poemas, aprendendo línguas estrangeiras ou representando um papel teatral, porém a criança precisa assimilar e transformar a matéria dada, não se apoiando somente na memória. Pode se pedir que ela faça um desenho daquele acontecimento que, em toda a matéria dada, impressionou-a mais profundamente, o aluno cria visualmente o que assimilou ouvindo.

A criança vive em seu próprio reino e os problemas que aí existem são extremamente sérios para ela, constituindo um treino para a vida posterior.

O caráter germinativo do sentimento deve ser respeitado para que a partir dele, mais tarde, a criança possa em liberdade interior desenvolver o pensamento e a vontade.


Metamorfose do sentir dos 9 aos 12 anos de idade


Ocorre uma transformação profunda na vida emocional da criança. Acaba a fase da fantasia ilimitada e a vida emocional passa por uma metamorfose. É quando ela começa a se fechar e se separar do mundo e o sentimento torna-se mais individual.

Muitas vezes ocorre o primeiro amor platônico, mas com o qual nem ousam falar.

Esta fase dos 9 aos 12 anos é a de maior religiosidade, leitura de lendas e biografia de homens santos e o cultivo do amor pela própria Natureza e por toda criação divina, é de grande ajuda para desenvolver os sentimentos.

Aos 9 anos, o Eu que, até então, atuava a partir da cabeça no organismo, é diretamente integrado ao sistema metabólico. Rudolf Steiner fala em um ‘acoplamento’. Psicologicamente a criança pode sofrer intensa vivência de solidão, pois vivência- se com certa independência em relação ao mundo ambiente. É uma fase crítica do desenvolvimento infantil, pode surgir o medo da morte, do escuro, achar que tem um homem debaixo da cama, querer que a porta do quarto fique aberta e a luz acesa.

A pedagogia Waldorf traz conscientemente o reconstruir dessa relação do jovem Eu com o mundo externo, introduzindo no estudo a Geografia pátria e a Zoologia, além de Mitologia germânica (Thor - as crianças vivenciam intensamente a história da recuperação do martelo, essa imagem tem relação com o amadurecimento fisiológico onde o Eu atinge o metabolismo, baseando-se no processo férreo, com cuja força o Homem age corajosamente no mundo e reencontra-se a si mesmo).

Se esse ‘acoplamento’ for bloqueado, poderá ocorrer perturbações do metabolismo, como o diabetes mellitus - expressão de uma insuficiente ação da Organização do Eu sobre certas funções do metabolismo (nota-se uma ocorrência maior da diabetes nesta idade).


Metamorfose da vontade - dos 12 aos 14 anos de idade.


Com o Eu já acoplado, deve conquistar para si todo o organismo, primeiramente através do sistema muscular e depois do sistema ósseo.

Os movimentos desajeitados, inconscientes, devem ser elaborados de modo mais consciente. Então, os músculos começam a se desenvolver, a gordura e o arredondado tende a desaparecer, ocorre um crescimento e o corpo se alonga.

Surge na alma da criança a compreensão pelos processos mecânicos e inertes do mundo externo. Na escola Waldorf inicia-se os estudos da Física Mecânica, da Química e da Matemática, pois nasce a compreensão pelas ideias abstratas. Introduz o manejo prático de ferramentas e aparelhos, através da jardinagem e artesanato, como contrapeso do ensino abstrato da Matemática.

Fisiologicamente, no sistema ósseo, o Eu conquista o corpo e ocorre a união das epífises com as diáfises, após a puberdade.


No segundo setênio do ser humano, define-se o temperamento, este perdurará para o resto da vida, pois está vinculado com seu corpo vital. Existem quatro temperamentos, de acordo com os quatro elementos. Todos nós temos os quatro temperamentos, porém com predominância de um deles:

O temperamento melancólico possui grande energia com pouca excitabilidade, pois tem um peso, está ligado ao corpo físico e ao elemento terra.

O temperamento fleumático, de pouca energia e pouca excitabilidade, tem uma fluidez, está ligado ao corpo etérico - vitalidade - e ao elemento água.

O temperamento sanguíneo tem pouca energia e uma grande excitabilidade, possui uma leveza e está ligado ao corpo astral - sentimento - e ao elemento ar.

O temperamento colérico tem muita energia e muita excitabilidade, tem a qualidade da decisão, está ligado ao Eu - individualidade espiritual - e ao elemento fogo.


Nesse período os sentidos intermediários são desenvolvidos para a percepção do ambiente: o olfato, o paladar, a visão e o sentido térmico. Mais tarde serão metamorfoseados na vida adulta. Você tem bom faro para as situações da vida? Consegue degustar a vida? Tem visão de futuro? Ou quanto de entusiasmo caloroso existe em suas ações?


Que tal resgatar as mudanças que ocorreram, olhando retrospectivamente para nossa vida nessa fase? Que tal resgatar nossos sonhos de criança? Vamos identificar qual é o nosso temperamento?

Em breve publicarei artigos sobre os temperamentos, o que ajudará você a identificar o seu!


Rudolf Steiner fez um verso para as classes após o quinto ano das escolas Waldorf, mostrando esse grande despertar, para o mundo, da Alma infantil.


Eu contemplo o mundo

onde o Sol reluz;

onde as estrelas brilham,

onde as pedras dormem,

onde as plantas vivem

e vivendo crescem;

onde os bichos sentem

e sentindo vivem;

onde já o homem,

tendo em si a alma,

abrigou o espírito.

Eu contemplo a alma

que reside em mim.

O Divino Espírito

age dentro dela,

assim como atua

sobre a luz do sol.

Ele paira fora na amplidão do espaço

e nas profundezas da alma também.

A ti eu suplico, ó Divino Espírito,

que bênçãos e forças

para o aprender,

para o trabalhar,

cresçam dentro de mim.



Índice

  1. O ambiente etérico é inconsciente, como se estivéssemos em uma floresta com névoa e umidade.

  2. Por exemplo quando do estudo de insetos, levar a criança até um jardim e proporcionar a vivência de encontrar joaninhas, grilos, aranhas, etc.

  3. Costumes são atos condicionados, por exemplo, escovar os dentes após as refeições, comer verduras, etc.

  4. Conceitos como certas expressões “você tem duas mãos esquerdas”, “você não tem jeito mesmo”, etc., sensibilizam muito o jovem frente a essas injustiças.

  5. Normas como “meninos não choram”, “meninas não devem subir em árvores nem lutar com meninos”, etc., podem ficar muito arraigada na pessoa e trazer problemas para enfrentar situações futuras, pois o sentimento se fecha. Normas rígidas demais sufocam a criança, é como inspirar constantemente sem expirar, podendo torná-la tímida ou introvertida. Porém, quando há falta de limites, é como se ela expirasse demais sem conseguir inspirar, torna-se um adulto extrovertido, sempre voltado para fora, invadindo o limite dos outros. Deve haver uma harmonia entre o espaço para a interioridade e espaço para sair de si mesmo e ir para o mundo, assim terá uma boa base para o convívio social no futuro.


Referência Bibliográfica


Blanco, Gerardo Antonorsi. Temas da Odontologia Ampliados pela Antroposofia. 1992.

Burkhard, Gudrun. Tomar a vida nas próprias mãos. 2007.

Bott, Victor. Medicina Antroposófica, uma ampliação da arte de curar. Volume 1. 1984.

Glöckler, Michaela e Goebel, Wolfgan. Consultório Pediátrico. 2002.

Lievegoed, Bernard. Desvendando o crescimento. As fases evolutivas da infância e da adolescência. 2001.

Moraes, Wesley Aragão de. Medicina Antroposófica, um paradigma para o século XXI. 2005.

Wolf, Otto. A imagem do homem como base da arte médica. Volume 1. 1978.


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Danielle Senff Petroni

Dentista Antroposófica

Aconselhadora Biográfica

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